Home Sobre Linhas de Pesquisa Blog Oportunidades Fotos Equipe Publicações
PhoneWhite01.svg EmailWhite01.svg InstagramWhite01.svg
Home / Blog / Memórias e marcas: como acontecimentos do passado podem desencadear o Transtorno de Estresse Pós-Traumático
Memórias e marcas: como acontecimentos do passado podem desencadear o Transtorno de Estresse Pós-Traumático

Ao longo da vida, as pessoas passam por muitos acontecimentos, os quais ficam marcados em memórias, sejam estas positivas ou negativas. Quando as memórias são ruins, a tendência é que determinados sentimentos sejam reprimidos para que a vida cotidiana não seja afetada por tal lembrança. Todavia, quando uma emoção é reprimida, o cérebro tenta ignorá-la, mas ela ainda existe. Assim, quando submetidas a determinadas situações ou gatilhos, essas memórias podem vir à tona em uma forte intensidade. Quando um indivíduo é exposto a um evento considerado traumático, como desastres naturais, guerras, assaltos, estupro, ou trabalhar na linha de frente de desastres como bombeiros ou enfermeiros, um transtorno pode ser desencadeado, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, ou PTSD.

A sigla proveniente do inglês se refere ao posttraumatic stress disorder, um transtorno que indivíduos vulneráveis podem desenvolver quando submetidos a situações traumatizantes intensas. O PTSD afeta cerca de 8% da população mundial e existem pesquisadores especializados no estudos de mecanismos neurobiológicos envolvidos nesse transtorno, como a Profa. Dra. Sabrina Francesca de Souza Lisbôa, pesquisadora na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e líder do grupo Neuropsychopharmacology Lab, entrevistada para a realização dessa matéria.

Segundo Sabrina, diferente da depressão, em que acúmulo de diferentes estímulos estressores ao longo da vida podem levar a essa doença, no PTSD normalmente o agente causador do trauma é conhecido e pode ser agudo. É importante salientar que uma resposta de estresse pós-trauma é normal em todos os indivíduos expostos a situações traumáticas e pode durar alguns meses. “Praticamente todo mundo passará por pelo menos um evento traumático na vida e, nestas situações, respostas de medo, de apreensão, são normais, pois fazem parte do mecanismo natural de defesa. Entretanto, uma parte dos indivíduos não se recupera dessa resposta e pode desenvolver o transtorno”, diz a pesquisadora. O PTSD se manifesta através de um conjunto de sintomas debilitantes persistentes, levando ao sofrimento e ao prejuízo, e estes sintomas são divididos em quatro grupos distintos: (i) sintomas intrusivos, como pesadelos e flashbacks relacionados ao evento traumático; (ii) comportamentos de evitação, incluindo evitar lembretes como lugares, pessoas e conversas; (iii) alterações negativas na cognição e no humor; e (iv) maior excitação e reatividade.

Dependendo da natureza do trauma, a prevalência desse transtorno varia. Em geral, estupro e violência doméstica são as principais causas do desenvolvimento do PTSD em mulheres e crianças, enquanto traumas decorrentes de eventos pós-guerra são mais comuns em homens. Atualmente existem tratamentos farmacológicos para o PTSD, que consistem em antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina (ISRS), particularmente paroxetina e sertralina. Entretanto, como é um transtorno multifatorial e com diferentes grupos de sintomas, existe uma baixa taxa de resposta ao tratamento, mesmo quando associado à psicoterapia. Mesmo aqueles indivíduos que respondem ao tratamento não estão curados, pois podem ter recidiva de sintomas. Portanto, tratamentos farmacológicos são eficazes, mas o nível de eficácia é variável, e nem todos os indivíduos terão os benefícios dos tratamentos. Por isso as pesquisas são importantes, para tentar desvendar mecanismos envolvidos na doença em diferentes populações, o que direcionaria uma melhor farmacoterapia.  

Qualquer outro tratamento além dos ISRS é considerado off label, incluindo outros antidepressivos, como fluoxetina e venlafaxina, e alguns antipsicóticos atípicos para pacientes que apresentam sintomas psicóticos. Existem também tratamentos direcionados especificamente para grupos de sintomas observados no PTSD. Por exemplo, o uso de prazosin, um antagonista de receptores alfa adrenérgicos do tipo 1, para o tratamento de pesadelos e insônia, frequentes no PTSD.

Recentemente, estudos clínicos, principalmente nos Estados Unidos, têm avaliado a eficácia de substâncias psicodélicas, particularmente o MDMA (ecstasy), demonstrando resultados promissores, com redução da severidade de sintomas após poucas sessões. Um estudo pequeno no Brasil também demonstrou resultados promissores. Cabe ressaltar que esses tratamentos ainda não estão disponíveis para a população em geral e necessitam de associação a um acompanhamento psicoterapêutico. No caso do PTSD, a psicoterapia é a primeira linha de tratamento, pois é focada no trauma, abordando diretamente as memórias do evento traumático ou pensamentos e sentimentos relacionados ao evento traumático. As abordagens usadas são Exposição Prolongada, Terapia de Processamento Cognitivo e Terapia Cognitivo-Comportamental focada no trauma. O tratamento farmacológico é importante, principalmente nos casos mais graves, mas sem a psicoterapia direcionada ao trauma é improvável que apenas um fármaco funcione.

​​ Para Sabrina, apesar da severidade do PTSD, a farmacoterapia é limitada e ineficaz em muitos casos. Como nenhuma intervenção farmacológica é totalmente eficaz para todos os pacientes, frequentemente é necessário combinar vários medicamentos, o que aumenta o risco de efeitos colaterais. A ineficácia dos tratamentos está possivelmente associada a multifatoriedade do PTSD, já que há fatores como o tipo do trauma e a frequência da exposição a este, o sexo e a idade do indivíduo, que podem levar a diferentes consequências no organismo e no cérebro, como alterações em múltiplas e diferentes moléculas e sistemas, possivelmente responsáveis pelos sintomas e severidade desses. Com isso, a ciência ainda tem muito o que responder sobre o PTSD e estudos ainda são necessários para identificar os mecanismos ou moléculas alterados pela exposição ao trauma, considerando as diferentes condições mencionadas acima (sexo, idade, frequência de exposição, etc), ou mecanismos/moléculas alterados associados aos sintomas, que poderiam servir como biomarcadores e, assim, direcionar tratamentos a serem explorados na clínica para aumentar a qualidade de vida dos pacientes.



Texto por Diogo Santos Campachi

Graduando em Farmácia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Editado por Sabrina F. de S. Lisbôa



 


Powered by: Cloud Comp
Nós respeitamos a sua privacidade
Nós utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com a nossa política de privacidade.
Eu concordo
Aviso
WidgetCloseButton01.png
Parece que você está offline ou o serviço que você está tentando acessar não existe!
Por favor, verifique a sua conexão com a internet!
Fechar
Aviso
WidgetCloseButton01.png
Ops, algo deu errado!
Fechar